A importância da cintilografia do miocárdio


O que é a cintilografia do miocárdio?

cintilografia do miocárdio

 


Dentre as especialidades médicas que mais avançaram nos últimos 50 anos encontra-se com destaque a Cardiologia. O ecocardiograma, a cintilografia do miocárdio, a revascularização por meio de stents,  a medida do cálcio intracoronariano (score de cálcio), a angiotomografia  foram alguns do grandes progressos.  De parte da Medicina Nuclear a contribuição dos exames com isótopos radioativos no diagnóstico de várias doenças cardíacas foi tão importante que se criou até uma sub-especialidade, a que se  chamou de “Cardiologia Nuclear”. O exame que teve a maior influência na clínica cardiológica foi a cintilografia de perfusão do miocárdio.

O que é cintilografia do miocárdio?


O músculo que forma as paredes do coração denomina-se “miocárdio”.
A cintilografia do miocárdio é a imagem do coração obtida pela detecção e o registro das radiações emitidas por uma substância radioativa previamente injetada em um paciente e que se concentrou no músculo cardíaco.
Usando diferentes substâncias radioativas – ou radiofármacos - podemos estudar:  a perfusão sanguínea  e o metabolismo do miocárdio,  e diagnosticar doenças inflamatórias ou problemas de invervação.
O exame de cintilografia de perfusão é de todos estes o mais solicitado pelos cardiologistas.  Por isto, na prática, quando falamos em “cintilografia do miocárdio” fica quase sempre subentendido que estamos nos referindo à cintilografia da perfusão (CPM).


O que a cintilografia do miocárdio nos informa?


As artérias que nutrem o músculo cardíaco chamam-se coronárias.  Com o avanço da idade somado a outros fatores, as  coronárias se obstruem com frequência  por depósitos de cálcio  e  gorduras nas suas paredes,  podendo dificultar o aporte sanguíneo às paredes do coração, principalmente do ventrículo esquerdo. Esta condição designa-se por “ doença arterial coronariana” (DAC).

A cintilografia do miocárdio avalia  a irrigação sanguínea das parede do ventrículo esquerdo e nos mostra se o ventrículo está uniformemente perfundido ou se  alguma das paredes está com déficit de perfusão. Como a principal causa de irrigação deficiente é a obstrução  de uma ou mais coronárias que irrigam as várias paredes,   este procedimento  tem muito valor para auxiliar no diagnóstico da DAC e no acompanhamento dos pacientes coronariopatas.

A cintilografia não mostra as artérias  mas vai mostrar qual a parede comprometida, se o comprometimento é reversível ou não , a sua extensão e a sua gravidade.  O trabalho de bomba de sangue do músculo cardíaco só é adequado se todas as paredes do ventrículo esquerdo estiverem bem perfundidas.

Como é feito o exame da cintilografia do miocárdio?
Existem vários radiofármacos para estudar a perfusão do miocárdio, porém o mais largamente  usado é o radiofármaco conhecido por sua sigla MIBI, que é marcado com tecnécio-99m  (MIBI-99mTc).
A CPM é sempre feita associada a um teste de esforço ou teste ergométrico (TE)), ou à administração por veia (i.v.) de um medicamento dilatador das coronárias,   pois deve avaliar  a perfusão das paredes do miocárdio quando o paciente faz um esforço grande, ou está com as coronárias dilatadas, e deve compará-la  com uma cintilografia de perfusão  quando está em repouso. 
Por isto o exame é feito em 2 etapas. Ambas podem ser realizadas em um mesmo dia (protocolo de 1 dia) ou em 2 dias diferentes (protocolo de 2 dias). A escolha do protocolo  a ser adotado compete ao respectivo  serviço de Medicina Nuclear.


Preparo:


Para a CPM associada ao esforço físico o preparo é o recomendado para o TE: evitar esforços físicos e fumo na véspera, suspender determinados medicamentos  a critério do seu médico e do médico ergometrista.
Para a CPM associada ao vasodilatador, o paciente deve abster-se de bebidas e alimentos que contenham xantinas (café, chás e chocolates como bebida ou em doces são os principais) durante 24 horas antes do exame.


Protocolo de 1 dia:


Inicia-se pelo estudo na fase de repouso.
A dose de MIBI-99mTc é administrada i.v.. Entre 60 e 90min depois o paciente é acomodado na maca da câmera de detecção das imagens, onde serão obtidos cortes tomográficos do coração.
Numa câmera de cintilação convencional, o cabeçote detector gira em volta do paciente para registrar várias projeções do coração, necessárias para construir os cortes tomográficos.
Se for usada uma câmera dedicada exclusivamente para imagens cardíacas, o detector , em  forma de um arco, é fixo e registra simultaneamente todas as projeções  necessárias para a tomografia.

Fase de esforço ou de stress:


Cerca de 1 h depois da 1ª etapa, o paciente realiza um TE convencional, sempre executado por um cardiologista.  Quando sua frequência cardíaca chegar ao máximo (para sua idade) ou quando no registro do eletrocardiograma (ECG) aparecerem sinais de isquemia, injeta-se uma segunda dose de MIBI-99mTc, 1 min antes de terminar o exercício.
Cerca de 15 min depois é obtida a “cintilografia de esforço”.
No caso de estímulo farmacológico, o vasodilatador (dipiridamol ou adenosina) é injetado lentamente durante 6 min, sendo o MIBI administrado na veia aos 4min.
O vasodilatador pode dar para-efeitos  como dor de cabeça ou sensação de mal-estar. Estes sintomas desaparecem com uma injeção i.v.  lenta de aminofilina.

Protocolo de 2 dias:


Neste protocolo inicia-se pelo teste ergométrico ou o stress farmacológicos e a cintilografia de esforço correspondente  no 1º dia e completa-se com o “teste de repouso” no dia seguinte ou em um dia subsequente próximo.
Se a cintilografia do 1º dia resultar normal, mostrando que a perfusão das paredes do ventrículo esquerdo está íntegra, o paciente pode eventualmente ser dispensado de fazer a cintilografia de repouso.

Como é interpretado o exame?


O sangue que passa por uma coronária obstruída pode estar irrigando suficientemente a parece pela qual é responsável quando o coração está trabalhando em condições basais, ou seja, quando o indivíduo está em atividades que não demandam nenhum esforço ou stress.
Porém se o indivíduo passa a uma atividade que exige mais trabalho do coração, como correr ou subir ladeiras ou escadas, o sangue que consegue passar pela artéria obstruída não é mais suficiente para a parede correspondente e ela fica isquêmica, que quer dizer “sem sangue”. A isquemia é uma falta ou insuficiência de aporte de sangue transitório, que limita o paciente mas que pode ser tratada.
Se o indivíduo já teve um infarto, a coronária da parede infartada ocluiu e as células do miocárdio morreram por não terem mais recebido sangue. Mesmo que a coronária seja recanalizada, se as células cardíacas não são mais viáveis não irão mais concentrar qualquer substancia indicadora de perfusão sanguínea.

O exame de CPM compara as imagens da fase de esforço ou stress com a fase de repouso ou basal.  Defeito de concentração de MBI após esforço mas concentração normal no repouso sugere coronariopatia e indica que o paciente deve ser investigado com mais exames e tratado. Se o defeito de concentração após esforço persiste na fase de repouso, o defeito persistente é interpretado como uma fibrose decorrente de um infarto e o paciente deve permanecer em tratamento para manter da melhor forma possível a função do seu coração.

Quais os riscos da cintilografia do miocárdio associada ao teste de stress?


Como todo exame que implica no uso de radiações, a única contra-indicação formal  para a cintilografia do miocárdio  constituem as pacientes grávidas ou com risco de gravidez.  Excetuando esta condição o radiofármaco e a cintilografia são praticamente isentos de risco. Raríssimos casos anedóticos referem alguma interrogada manifestação de alergia após a injeção de MIBI.
Eventuais riscos estão ligados ao teste ergométrico ou ao dipiridamol.  Contudo os pacientes são bem orientados pelos cardiologistas e avaliados clinicamente no dia do exame, o qual não é realizado se houver qualquer fator que possa resultar em complicação.
O TE vem sendo realizado há mais de 70 anos e a cintilografia do miocárdio há 50 anos, o que atesta a sua  segurança.
Porém, esclareça sempre suas dúvidas com o seu cardiologista ou clinico, ou com o especialista em Medicina Nuclear. Você deve realizar seu exame com inteira tranquilidade.

Conclusão


O diagnóstico conclusivo   da DAC é feito pelo cateterismo cardíaco. É  um exame invasivo mas imprescindível para confirmar a obstrução das coronárias.  A cintilografia do miocárdio juntamente com o teste de stress é um teste não invasivo, de fácil execução, que permite selecionar os pacientes que efetivamente devem ser direcionados para o cateterismo e permite evitar o exame invasivo desnecessário.  Nos pacientes tratados, avalia o resultado do tratamento e possibilita o seguimento confiável da evolução do coronariopata.
 

Veja também: Cintilografia Renal